Vereadores de SP aproveitam sobrenome famoso para manter família no poder

19/09/2016 20:20

Matéria publicada originalmente pelo Portal UOL

Caio do Valle e Marcelle Souza

Colaboração para o UOL, em São Paulo

Arte UOL

Eduardo é primo de Andrea, que é vice de Marta, divorciada de Eduardo, cada um em um partido diferente. Mario, filho de outro Mario, é tio de Bruno, que é o vice na chapa tucana à prefeitura. Matarazzo, Suplicy, Covas, muitos sobrenomes famosos aparecem nas eleições deste ano.

Talvez porque, na política brasileira, as coisas se resolvam em família. E essa máxima não poderia ser mais verdadeira para a Câmara Municipal de São Paulo, onde um quinto dos vereadores paulistanos pertence a algum clã político.

São dinastias que, muitas vezes, extrapolam os limites do Legislativo municipal e servem para perpetuar sobrenomes no poder. Quem estuda o assunto aponta na existência desse fenômeno um sintoma do fisiologismo que marca o sistema político-partidário do Brasil.

Segundo levantamento do UOL, dos atuais 55 ocupantes da Câmara, 11 têm pais, filhos, cônjuges, irmãos, sobrinhos, primos e tios atuantes na política institucional --a maioria deles busca a reeleição neste ano. Muitos carregam nomes de famílias que há várias décadas protagonizam o espaço político tanto em São Paulo quanto no âmbito federal.

 

Caso de Eduardo Tuma (PSDB), sobrinho do delegado Romeu Tuma (1931-2010), que, além de senador, foi diretor-geral do Deops (Departamento Estadual de Ordem Política e Social), órgão oficial da repressão durante a ditadura militar.

A trajetória do clã a que pertence é ainda mais antiga: em meados do século passado, o tio-avô de Eduardo e primo de Romeu, Nicolau Tuma, foi eleito três vezes vereador na capital paulista, pela extinta UDN (União Democrática Nacional), partido conservador que combateu o trabalhismo de Getúlio Vargas. Nicolau ainda alçou o cargo de deputado federal em três ocasiões. Filhos de Romeu e primos do atual vereador Eduardo Tuma, os delegados Robson e Romeu Tuma Júnior também já ocuparam cargos legislativos.

 

O vereador Mario Covas Neto, também do PSDB, conta não só com o sobrenome, mas com o próprio nome do pai famoso, o governador tucano Mario Covas Júnior, morto em 2001 e que, além de chefe do Executivo paulista, foi prefeito, deputado e senador. O Mario Covas atual é tio do deputado federal tucano Bruno Covas, ex-secretário do governador Geraldo Alckmin (PSDB) e vice na chapa do partido pela Prefeitura de São Paulo, que tem à frente João Doria.

 

Ainda dentro do PSDB, encontramos outra dinastia política, esta mais recente. A vereadora Patrícia Bezerra ocupa atualmente o mesmo posto que já foi, por três mandatos, de seu marido, o atual deputado estadual Carlos Bezerra Júnior (PSDB). Ambos são ligados a igrejas protestantes da zona leste e inúmeros projetos de Patrícia versam justamente sobre a temática religiosa.

 

No PT, há a família Tatto. Dos quatro irmãos que circulam pela política atualmente, dois estão na Câmara de São Paulo. São eles os vereadores Arselino e Jair. Ali perto, na sede da Secretaria Municipal dos Transportes, também situada no centro da cidade, bate o ponto o irmão Jilmar, titular da pasta relacionada a mobilidade e trânsito da gestão Fernando Haddad (PT). Jilmar já foi deputado federal petista. Hoje, o clã conta com um representante na Assembleia Legislativa estadual, também pelo PT: Enio Tatto. A família encontra na região da Capela do Socorro, na zona sul paulistana, um dos seus redutos. O local já foi alcunhado pejorativamente de "Tattolândia" por opositores.

 

Também com presença acentuada na zona sul e ligada aos perueiros, a dinastia Leite é uma das mais articuladas, com membros ocupando atualmente a Câmara Municipal, a Assembleia Legislativa estadual e o Congresso Nacional. O "patriarca" é o vereador Milton Leite (DEM), que já está em seu quinto mandato. Os filhos Alexandre Leite e Milton Leite Filho, ambos do DEM, têm assentos hoje na Câmara Federal e na Assembleia do Estado, respectivamente. Peculiaridade da dinastia Leite é o forte sentimento de pertença familiar, o que a levou até a criar uma página na internet para divulgar as biografias e ações políticas do clã. O site encontra-se fora do ar por força da legislação eleitoral.

 

Há famílias  que não são, digamos assim, unidas. Talvez nem sequer seja possível chamá-la de clã. O vereador Andrea Matarazzo (PSD) tem um primo de sangue, o ex-senador Eduardo Suplicy, que é um dos principais quadros de um dos seus partidos adversários, o PT. Suplicy, cujo sobrenome do meio é Matarazzo, concorre a uma vaga na Câmara: se vencer a disputa, será o único da "dinastia" no Legislativo municipal. Isso, porque Matarazzo abriu mão de disputar a reeleição para compor, como vice à prefeitura, a chapa de alguém que, até uma década e meia atrás, era sua "prima" por extensão, a senadora e ex-prefeita Marta Suplicy (PMDB), então casada com o petista.

 

Por falar em casamento, a união marital sustenta algumas outras dinastias da presente legislatura na Câmara paulistana. É o caso do vereador Ota (PSB), marido da deputada federal Keiko Ota, do mesmo partido. O casal diz lutar pela defesa dos direitos humanos, bandeira empunhada após o assassinato de seu filho Ives, ainda criança.

 

Já a vereadora Sandra Tadeu, do DEM, trocou alianças com o deputado federal Jorge Tadeu Mudalen (DEM), que exerce o seu sétimo mandato em Brasília. Este clã possui raízes em Guarulhos, município da Grande São Paulo onde Sandra também atuou como vereadora em dois mandatos.

 

O vereador George Hato (PMDB), por sua vez, tem um nome cuja sonoridade lembra muito a de seu progenitor, o hoje deputado estadual Jooji Hato (PMDB), que foi vereador paulistano por sete mandatos consecutivos. George, que mantém viva a dinastia na Câmara, também decidiu seguir os passos do pai na medicina.

 

Medicina, por sinal, é o que destacava o cardiologista Adib Jatene (1929-2014), tio do vereador Celso Jatene (PR). Tanto é assim que Adib foi ministro da Saúde, nos governos de Fernando Collor (então no PRN) e de Fernando Henrique Cardoso (PSDB).

Coronelismo

O que dizer a respeito da presença de tantos parentescos no seio da política institucional da maior cidade do país, em pleno século 21? A doutora em ciências sociais Esther Solano, que é professora da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), argumenta que a existência de clãs familiares "é muito negativa" para o sistema político.

Você transforma uma democracia representativa em um sistema hereditário e feudal, onde aquele que tem privilégios acaba tendo o poder político e aquele que não tem privilégios familiares fica fora do sistema

Esther Solano, cientista social

De acordo com ela, o coronelismo ainda viceja no Brasil, com a "concentração de poder econômico e territorial em mãos de poucas famílias". "Uma forma indispensável para manter este poder é também ter o controle da máquina pública."

A cientista social ainda explica que as dinastias políticas "são uma forma de reprodução do poder oligárquico que tanto mal faz" para o país e que uma forma de combatê-los é por meio da formação formação política crítica. "Ter cidadãos autônomos e com conhecimento político crítico é a melhor forma de lutar contra esses clãs", afirma Solano.

Veja o que os políticos dizem

Os 11 vereadores que hoje integram clãs políticos na Câmara Municipal de São Paulo foram procurados pelo UOL para se manifestarem sobre o assunto. Alguns tratam do tema com naturalidade, outros buscam fugir da pecha de serem "dinásticos" e uns nem sequer responderam aos questionamentos.

A reportagem entrou em contato com os parlamentares citados, por e-mail e por telefone, nos dias 29 e 31 de agosto, 2, 14 e 16 de setembro. Apesar da insistência, não obteve respostas de Eduardo Tuma (PSDB), Patrícia Bezerra (PSDB), Ota (PSB), Arselino e Jair Tatto (PT). A Secretaria Municipal de Transportes de São Paulo, comandada por Jilmar Tatto, foi procurada entre os dias 12 e 17 de setembro e também não se pronunciou.

Para o vereador Mario Covas Neto (PSDB), "é natural" que os descendentes de políticos aprovados "como homem público sejam beneficiados" com votos. "Porém é bom lembrar que as pessoas entram na política por votação, e não por indicação. Não se herda o cargo, mas o conquista com votação." 

Ainda de acordo com ele, o nome do seu pai pesa, sim, positivamente para a sua própria carreira política. "Tenho consciência de que estou aqui por ser filho dele, mas a continuidade de minha carreira como homem público dependerá da minha atuação."

Já o vereador Milton Leite (DEM) atribui a presença de tantas famílias na política paulistana e brasileira a "um processo natural em que os filhos seguem os passos dos pais". Em sua opinião, o seu nome pesa positivamente para a carreira dos seus dois filhos deputados, porém discorda que a existência de clãs esbarrem na renovação política da cidade.

O vereador e pré-candidato a vice-prefeito Andrea Matarazzo (PSD) disse apenas que não considera que sua família seja um clã político. "Sou o único que trabalhou em postos públicos e que concorreu a cargos eletivos. Do lado da família do Eduardo Suplicy também, ele é o único que seguiu carreira política. Além disso, somos de partidos completamente diferentes."

Na opinião da vereadora Sandra Tadeu (DEM), "as pessoas se interessam pouco pela política" e, por isso, "quando se tem um familiar que é político", como ela (casada com um deputado federal), "a gente acaba se interessando mais e participando, passamos a conviver e viver diariamente com a política". 

Para ela, seu marido pesa positivamente para a sua própria trajetória. "Comecei a minha história política ao lado dele, e tenho certeza que o que aprendi com ele me ajuda até hoje." Em sua avaliação, a renovação da política não é prejudicada pela presença de dinastias. "Não, a renovação que deve ser feita é a renovação das ideias, independentemente de quem ocupe o cargo político, devemos ouvir a população."

Já o vereador George Hato (PMDB) atribui a existência de tantos clãs na política de São Paulo à "vocação". "Desde criança acompanhei o meu pai, deputado Jooji Hato e meus tios na trajetória política. Presenciei lutas, conquistas que meu pai conseguiu para São Paulo. Desde então quis dar continuidade no trabalho, lutando pelo interesse da sociedade." Ele afirma não acreditar que a renovação política seja refreada pelas dinastias, porque, de acordo com ele, "o poder está na mão do povo".

Embora considere-se beneficiado politicamente por seu parentesco com um ex-ministro da Saúde, o vereador Celso Jatene (PP) reconhece que a presença de clãs políticos no Brasil se deve "à falta de uma legislação específica que proíba, na mesma linha da Súmula Vinculante 13 do Supremo Tribunal Federal que proíbe o nepotismo". Porém Jatene sustenta que o nome de seu pai também pesa positivamente, "mas por ter sido pessoa honrada e não pelo fato de meu tio ter sido ministro. Lembro que meu tio nunca exerceu cargo eletivo".

Por fim, ele diz não crer que o parentesco emperre a renovação na política nacional. "Não acredito que seja só esse motivo. A legislação eleitoral ainda favorece quem está no mandato e a reforma política precisa acontecer em caráter urgente."