Foi sorte, diz vereador que mais enriqueceu em São Paulo

14/07/2012 08:51
DIÓGENES CAMPANHA
PAULO GAMA
DE SÃO PAULO
 
Jogador habitual e participante de bolões na Câmara paulistana, o vereador que mais enriqueceu nos últimos quatro anos diz que foi a "sorte" que o levou a comprar --sozinho-- os três bilhetes que lhe deram o primeiro prêmio na loteria federal em 2009.
 
Wadih Mutran (PP), vereador desde 1983, dobrou seu patrimônio durante o último mandato com a ajuda dos R$ 600 mil ganhos com a aposta. Reelegeu-se em 2008 declarando ter R$ 1,9 milhão. Em 2012, busca mais quatro anos na Casa com bens que somam R$ 3,8 milhões.
 
Ele diz que a variação foi devidamente informada à Receita e que já tinha o "hábito de jogar na loteria federal muito antes de ser vereador". "Em maio de 2009 tive a sorte de [ter] em mãos o bilhete completo cujo número saiu no 1º prêmio", disse em nota.
 
Segundo a Caixa, sua chance no sorteio era de 1 em 80 mil--a de acertar as seis dezenas com uma aposta na Mega-Sena é de 1 em 50 milhões.
 
Auxiliares e colegas da Câmara relataram que ele costuma apostar ao menos duas vezes por semana. Apesar disso, seis vereadores --quatro deles de seu grupo político--disseram que ele nunca contou ter tirado a sorte grande.
 
Seu gabinete diz que ele já se desfez do comprovante do prêmio. Ele se recusou a falar ontem. Na nota, afirmou que "não vive só da vereança, é empreendedor e dono de imóveis locados".
 
O Ministério Público avaliará se cabe investigação sobre seu enriquecimento.
 
Mesmo tendo sido alvo de um assalto em 2008 --quando ladrões invadiram sua casa procurando R$ 5 milhões--, Mutran mantém a prática de guardar moeda em espécie: declarou ter R$ 1,4 milhão em dinheiro. O prêmio da loteria, diz, foi usado para se mudar para um apartamento.
 
Aliado do deputado Paulo Maluf (PP-SP), Mutran integrou a tropa de choque do então prefeito Celso Pitta (1997-2000). É famoso por atender pedidos da população na zona norte, onde se concentra sua base eleitoral.
 
HISTÓRICO
 
No passado, outros políticos se notabilizaram por ter ganhado na loteria --mas, diferentemente de Mutran, foram premiados várias vezes.
 
Segundo o Coaf, órgão de inteligência financeira do Ministério da Fazenda, prêmios reiterados podem ser indício de lavagem de dinheiro: donos de lotéricas comprariam o bilhete do ganhador e o venderiam ao interessado em disfarçar a origem de recursos.
 
Segundo Antonio Gustavo Rodrigues, que preside o órgão, a venda não acontece com prêmios elevados, mas, sim, de pequenos valores, uma vez que o verdadeiro ganhador teria de forjar a origem do dinheiro que recebeu pelo bilhete. O padrão, diz, são prêmios de no máximo R$ 30 mil. Ele afirma que a prática vem diminuindo.
 
Matéria publicada originalmente na Folha de S.Paulo