Entidades que receberam verba apontam para 'mercado das emendas infladas'

24/04/2018 07:56

Matéria veiculada originalmente pela Rádio CBN

Os organizadores alegam que alguns políticos apoiam a realização de um evento em troca de receber de volta parte do dinheiro repassado. O esquema envolve a emissão de notas fiscais superfaturadas para driblar a fiscalização. O caso foi revelado pela CBN e envolve 18 vereadores que apadrinharam 73 eventos.

 

Por Pedro Durán* (pedro.duran@cbn.com.br)

Os vereadores procurados pela CBN para falar do "Escândalo das Emendas Infladas" dizem que têm pouca relação com os projetos e que muitas vezes até são vítimas das entidades que superfaturaram os eventos esportivos.

Mas não é o que dizem os responsáveis pelas entidades.

Henrique Portela, presidente da Organização Desportiva e Cultural Olho do Futuro, revelou que só no último ano foi procurado por dois vereadores e três deputados para fazer negócios ilegais. 

O papel dele seria receber o dinheiro dos cofres públicos, superfaturar o orçamento do evento e devolver a sobra para o político. Portela não aceitou.

"Esse ano eu tive três ligações de assessores. Me propuseram depositar valores na ONG e eu devolver o retorno pra eles. Uma foi de R$ 800 mil, queria me depositar R$ 800 mil, eu retia R$ 200 mil e devolvia R$ 600 mil para eles. Vereadores foram dois. De vereador eu tive pra emenda mesmo, só que pedindo retorno da emenda, 20, 30, 40%... Jamais faria uma coisa dessas, mas tem pessoas que aceitam essa corrupção né? Realmente você pegar um valor e fazer o que tá proposto a fazer é uma coisa totalmente diferente", diz ele.

A reportagem da CBN entrou em contato com Adriano Camilo, presidente do Instituto Nacional de Assistência e Recuperação Social se passando por um assessor do vereador Milton Ferreira. Eles fizeram juntos o 'Campeonato de Futebol sub 11 e sub 13 do Jardim Niterói' em dezembro. Sem saber que estava sendo gravado, o dirigente da entidade dá a entender que parte do dinheiro voltou para o gabinete do parlamentar e que seria difícil comprovar a ilegalidade por causa de provas falsas produzidas no processo.

Repórter: Quanto voltou desse campeonato?

Adriano Camilo: Puta cara, só se eu entrar no sistema agora pra olhar. É que eu tô subindo umas fotos aqui, mas eu não lembro quanto que foi. Mas eu lembro que a gente fez todo o fechamento certinho, bateu e voltou no dia seguinte já.

Repórter: Já veio pra gente no dia seguinte, né?

Adriano Camilo: No dia seguinte, tudo certo. Apurado, fechado com notinha, tudo bonitinho.

Repórter: Porque aí depois a Controladoria vai em cima e o evento tem que ter acontecido, tem que ter tido tudo. E de fato, é bom pra comunidade.

Adriano Camilo: É, essas fotos que eu to subindo inclusive, pra ficar bonitinho no site. Porque quando eles forem olhar no site vai estar lá o número de empenho, nota de empenho, o plano de trabalho, as fotos, tudo bonitinho, entendeu? Período, data, tudo informativo.

Repórter: Quando começarem a pesquisar, não tem como eles descobrirem que parte do dinheiro voltou pro vereador, entendeu?

Adriano Camilo: Não, isso não tem como porque foi tirado tudo por nota.

Depois, ao saber que tinha sido gravado, Adriano Camilo deu duas versões. Primeiro disse que não se referia a propina e que a instituição era séria. Depois, que estava dando corda para tentar entender se um dos coordenadores dele poderia estar cometendo ilegalidades. Ele ainda citou que além do evento realizado estava negociando outros 3 com o chefe de gabinete do vereador, Mauzler Paulinetti.

"Eu tenho três projetos com o Mauzler pra acontecer. Que é a Copa 20 anos de novo de 2018, o sub20 e o sub15 que eu acho que vai acontecer. E eu sei que eles estão correndo nisso na área do esporte e na área da Cultura tem uma outra 'andada'. Eu não confirmei nada e eu não disse nada e a todo momento eu tava te explicando: não, pera aí, mas isso eu não tô sabendo. E os dois eventos que eu fiz no ano passado deram certo, as notas foram todas legais, todas certinhas, nós fechamos as notas. Então como que eu vou negar uma coisa que eu disse? Sendo que eu não disse. Agora, a minha instituição está transparente", rebateu ele.

Em entrevista à CBN, Mauzler Paulinetti disse que não conhecia nem a instituição e nem Adriano Camilo e alegou que não estava negociando retorno de dinheiro de eventos com ele. 

"Não existe nenhum centavo. Primeiro que eu não o conheço. Tanto é que [com] esse instituto eu não tenho relação nenhuma. Não conheço o Adriano. E outra coisa: dificilmente nós faríamos mais de um evento com um parceiro. E é impossível ele me argumentar dessa maneira que está tratando comigo três", diz ele.

Outra entidade que também realizou um evento patrocinado pelo vereador Milton Ferreira foi a Associação Butantã Atlético Clube, que fez o "Campeonato de Futebol Amador São Matheus". Os bairros do Butantã e São Matheus ficam em dois extremos da cidade: oeste e leste, separados por mais de 30km. O único contato encontrado pela reportagem da CBN foi o telefone de um escritório de contabilidade. A atendente disse que conhecia Mauzler porque recebia transferências bancárias dele. 

O chefe de gabinete, por sua vez, disse que conhece apenas parte da diretoria da associação, mas nunca visitou a sede e nem fez transferências bancárias.

Em um dos relatórios dos auditores do "Escândalo das Emendas Infladas", organizadores dos "Jogos Maçônicos", dizem que o próprio Mauzler foi quem levou troféus, medalhas e o time visitante para a competição. 

No final do dia, a assessoria do vereador Milton Ferreira procurou a CBN para informar que ele demitiria o chefe de gabinete Mauzler Paulinetti depois da revelação do escândalo. Mas depois voltou atrás, mantendo a defesa de que não compactua com irregularidades.

*colaborou Clara Marques

 

Por Pedro Durán* (pedro.duran@cbn.com.br)
 
Os vereadores procurados pela CBN para falar do "Escândalo das Emendas Infladas" dizem que têm pouca relação com os projetos e que muitas vezes até são vítimas das entidades que superfaturaram os eventos esportivos.
 
Mas não é o que dizem os responsáveis pelas entidades. 
 
Henrique Portela, presidente da Organização Desportiva e Cultural Olho do Futuro, revelou que só no último ano foi procurado por dois vereadores e três deputados para fazer negócios ilegais. 
 
O papel dele seria receber o dinheiro dos cofres públicos, superfaturar o orçamento do evento e devolver a sobra para o político. Portela não aceitou.
 
"Esse ano eu tive três ligações de assessores. Me propuseram depositar valores na ONG e eu devolver o retorno pra eles. Uma foi de R$ 800 mil, queria me depositar R$ 800 mil, eu retia R$ 200 mil e devolvia R$ 600 mil para eles. Vereadores foram dois. De vereador eu tive pra emenda mesmo, só que pedindo retorno da emenda, 20, 30, 40%... Jamais faria uma coisa dessas, mas tem pessoas que aceitam essa corrupção né? Realmente você pegar um valor e fazer o que tá proposto a fazer é uma coisa totalmente diferente", diz ele.
 
A reportagem da CBN entrou em contato com Adriano Camilo, presidente do Instituto Nacional de Assistência e Recuperação Social se passando por um assessor do vereador Milton Ferreira. Eles fizeram juntos o 'Campeonato de Futebol sub 11 e sub 13 do Jardim Niterói' em dezembro. Sem saber que estava sendo gravado, o dirigente da entidade dá a entender que parte do dinheiro voltou para o gabinete do parlamentar e que seria difícil comprovar a ilegalidade por causa de provas falsas produzidas no processo.
 
Repórter: Quanto voltou desse campeonato?
 
Adriano Camilo: Puta cara, só se eu entrar no sistema agora pra olhar. É que eu tô subindo umas fotos aqui, mas eu não lembro quanto que foi. Mas eu lembro que a gente fez todo o fechamento certinho, bateu e voltou no dia seguinte já.
 
Repórter: Já veio pra gente no dia seguinte, né?
 
Adriano Camilo: No dia seguinte, tudo certo. Apurado, fechado com notinha, tudo bonitinho.
 
Repórter: Porque aí depois a Controladoria vai em cima e o evento tem que ter acontecido, tem que ter tido tudo. E de fato, é bom pra comunidade.
 
Adriano Camilo: É, essas fotos que eu to subindo inclusive, pra ficar bonitinho no site. Porque quando eles forem olhar no site vai estar lá o número de empenho, nota de empenho, o plano de trabalho, as fotos, tudo bonitinho, entendeu? Período, data, tudo informativo. 
 
Repórter: Quando começarem a pesquisar, não tem como eles descobrirem que parte do dinheiro voltou pro vereador, entendeu?
 
Adriano Camilo: Não, isso não tem como porque foi tirado tudo por nota.
 
Depois, ao saber que tinha sido gravado, Adriano Camilo deu duas versões. Primeiro disse que não se referia a propina e que a instituição era séria. Depois, que estava dando corda para tentar entender se um dos coordenadores dele poderia estar cometendo ilegalidades. Ele ainda citou que além do evento realizado estava negociando outros 3 com o chefe de gabinete do vereador, Mauzler Paulinetti.
 
"Eu tenho três projetos com o Mauzler pra acontecer. Que é a Copa 20 anos de novo de 2018, o sub20 e o sub15 que eu acho que vai acontecer. E eu sei que eles estão correndo nisso na área do esporte e na área da Cultura tem uma outra 'andada'. Eu não confirmei nada e eu não disse nada e a todo momento eu tava te explicando: não, pera aí, mas isso eu não tô sabendo. E os dois eventos que eu fiz no ano passado deram certo, as notas foram todas legais, todas certinhas, nós fechamos as notas. Então como que eu vou negar uma coisa que eu disse? Sendo que eu não disse. Agora, a minha instituição está transparente", rebateu ele.
 
Em entrevista à CBN, Mauzler Paulinetti disse que não conhecia nem a instituição e nem Adriano Camilo e alegou que não estava negociando retorno de dinheiro de eventos com ele. 
 
"Não existe nenhum centavo. Primeiro que eu não o conheço. Tanto é que [com] esse instituto eu não tenho relação nenhuma. Não conheço o Adriano. E outra coisa: dificilmente nós faríamos mais de um evento com um parceiro. E é impossível ele me argumentar dessa maneira que está tratando comigo três", diz ele.
 
Outra entidade que também realizou um evento patrocinado pelo vereador Milton Ferreira foi a Associação Butantã Atlético Clube, que fez o "Campeonato de Futebol Amador São Matheus". Os bairros do Butantã e São Matheus ficam em dois extremos da cidade: oeste e leste, separados por mais de 30km. O único contato encontrado pela reportagem da CBN foi o telefone de um escritório de contabilidade. A atendente disse que conhecia Mauzler porque recebia transferências bancárias dele. 
 
O chefe de gabinete, por sua vez, disse que conhece apenas parte da diretoria da associação, mas nunca visitou a sede e nem fez transferências bancárias.
 
Em um dos relatórios dos auditores do "Escândalo das Emendas Infladas", organizadores dos "Jogos Maçônicos", dizem que o próprio Mauzler foi quem levou troféus, medalhas e o time visitante para a competição. 
 
No final do dia, a assessoria do vereador Milton Ferreira procurou a CBN para informar que ele demitiria o chefe de gabinete Mauzler Paulinetti depois da revelação do escândalo. Mas depois voltou atrás, mantendo a defesa de que não compactua com irregularidades.
 
*colaborou Clara Marques