‘Pode ter uma ação para desviar o foco para a Câmara’, diz Donato

13/11/2013 07:17

Ex-chefe de Governo afirma que ‘se afasta para defesa pessoal’, diz que investigação não é sobre ele e ataca antecessor

Bruno Ribeiro e Diego Zanchetta

Defensor da candidatura de Fernando Haddad quando o ex-ministro ainda era um anônimo em São Paulo, o sociólogo Antonio Donato, de 56 anos, apresentou a periferia ao atual prefeito e abriu para ele as salas das principais lideranças políticas e empresariais da cidade durante a campanha de 2012. Nos últimos 11 meses, participou das mais importantes decisões da gestão, como a criação das faixas exclusivas de ônibus, além de ter coordenado a nomeação de mais de 500 cargos comissionados.

A estatura de Donato cresceu de forma meteórica em cinco anos. Antes um quadro técnico discreto do partido, ele se elegeu vereador em 2008. Quatro anos depois, era presidente municipal do PT e coordenador da campanha de Haddad.

Para viabilizar a candidatura do atual prefeito, enfrentou até a tropa de choque da ex-prefeita Marta Suplicy, de quem foi secretário de Coordenação das Subprefeituras. Ao conseguir fazer Haddad candidato sem prévias, caiu nas graças do ex-presidente Lula.

As credenciais de Donato, entretanto, não foram suficientes para blindá-lo contra o escândalo da máfia dos fiscais. O homem forte do governo volta à Câmara com a certeza de que receberá apoio até da oposição.

Ele reiterou nesta terça-feira ao Estado que sua saída foi para defesa pessoal. E investiu contra Mauro Ricardo, ex-secretário de Finanças.

Quando decidiu se afastar?

Decidi na hora do almoço. Conversei com o prefeito e falei que, para a minha defesa pessoal, achava importante voltar para a Câmara, para me defender plenamente das acusações infundadas que têm sido veiculadas e das possíveis acusações que sejam construídas. Para o governo, isso também é bom, porque retira o ruído político que poderia desestabilizar o ambiente muito positivo de trabalho da Controladoria.

E como o senhor pretende se defender? Ainda não existem acusações formais contra o senhor.

Existe uma situação política criada em função de todos os grampos, de ilações de relacionamentos que eu possa ter com os fiscais. Alguns eu conhecia, mas procurei sempre colaborar com as investigações da Controladoria. Do ponto de vista jurídico, ainda não tem nenhuma acusação contra mim. Estou preparado para me defender de calúnias e mentiras que sejam ditas.

A que o senhor atribui essas acusações? Qual era o seu relacionamento com os fiscais?

Acho que eles poderiam ter alguma expectativa, por me conhecer, por terem colaborado na campanha do prefeito com estudos, com projeções... Eles eram muito proativos, em particular o Ronilson (Rodrigues, apontado como chefe do esquema). Talvez tenham criado uma expectativa de proteção que não aconteceu. E pode ter algum ingrediente político que ainda não consigo dimensionar. Pode ter uma coordenação política para desviar o foco das investigações para a Câmara ou qualquer outro lugar.

Como seria esse uso político?

É uma investigação que tem desdobramentos políticos. É difícil conceber que o (ex-) secretário (de Finanças) Mauro Ricardo, que é um homem muito ligado ao (José) Serra (PSDB), não soubesse de um esquema durante oito anos que ele ficou em cima (do gabinete). Em três, quatro meses, a gente claramente identificou. Então, é evidente que tem um conteúdo político e pode ter uma articulação política para tentar envolver meu nome. Mas é uma possibilidade.

O Ministério Público diz que o foco da investigação vai de 2007 a 2012. Como o senhor avalia que acabou envolvido nisso?

É uma situação kafkiana, em que eu tenho de responder porque conheci (os fiscais). Está claro no processo todo que eu poderia tê-los ajudado e não os ajudei e é por isso que estou me afastando. Tem de ficar claro que a investigação não é sobre mim. É sobre o governo passado.

E o que muda com o senhor na Câmara?

Minhas opiniões serão minhas opiniões, não serão do governo. Isso é importante para ter liberdade para me defender. A Controladoria já deu frutos e é importante que continue forte.

Chegou a ter algum contato com os fiscais, após a denúncia?

Não, nenhum.

Matéria publicada originalmente pelo Estadão.com.br